Desafios Regulatórios das Finanças Descentralizadas

Desafios Regulatórios das Finanças Descentralizadas

As Finanças Descentralizadas (DeFi) emergem como uma revolução no setor financeiro, oferecendo alternativas sem intermediários e potencial de inovação exponencial. No entanto, as estruturas regulatórias tradicionais enfrentam obstáculos para abarcar esse novo universo. É fundamental compreender o equilíbrio entre inovação disruptiva e proteção ao investidor para moldar um futuro sustentável.

O Surgimento e a Singularidade do DeFi

Os protocolos DeFi funcionam como protocolos financeiros sem intermediários tradicionais, baseados em smart contracts, majoritariamente na rede Ethereum e suas soluções de camada 2. Ao eliminar bancos, corretoras e custodians, esses sistemas permitem que usuários emprestem, tomem emprestado, troquem ativos e participe de pools de liquidez de forma autônoma.

Esse modelo desafia a lógica clássica da regulação financeira, que se ancora em intermediários licenciados, pressupõe jurisdição definida e requer processos sólidos de KYC e AML. Surge então a pergunta: quem é o responsável legal quando a governança ocorre via DAO e o código aberto é acessível globalmente?

A tensão entre autocustódia e rastreabilidade agrava o problema, pois os usuários mantém carteiras próprias, dificultando a aplicação de regras de supervisão e prevenção à lavagem de dinheiro em transações cross-border. Malgrado os desafios, DeFi impõe a necessidade de repensar paradigmas regulatórios para não sufocar a inovação.

Panorama Regulatório Global sobre DeFi

Apesar de existir interesse crescente, ainda não há um regime global unificado para DeFi. Cada país recorre à interpretação de legislações preexistentes sobre valores mobiliários, commodities, derivativos ou meios de pagamento, criando insegurança jurídica e arbitragens regulatórias.

  • Classificação jurídica dos criptoativos: define autoridades competentes e modalidades de tributação.
  • Tributação: tendência de tributar ganho de capital, com ressalvas sobre ônus excessivo.
  • AML/KYC e Travel Rule (GAFI/FATF): requisitos heterogêneos dificultam compliance internacional.
  • Stablecoins: debates sobre reservas 100% auditáveis e tratamento como instituições financeiras.
  • CBDCs: respostas institucionais que podem conviver com DeFi em infraestruturas híbridas.

Nos Estados Unidos, a ausência de lei federal unificada gera conflitos entre SEC, CFTC e FinCEN, enquanto estados como Nova York implementam regimes específicos, como a BitLicense. Na Europa, os reguladores avançam no MiCA (Markets in Crypto-Assets), preparando um quadro mais coeso para ativos digitais.

Desafios Práticos para Regulação de Protocolos Globais

As inovações DeFi apontam para um sistema financeiro sem fronteiras claras. Reguladores em diferentes jurisdições enfrentam três problemas centrais:

  • Identificação de intermediários num protocolo automatizado.
  • Aplicação de regras nacionais a contratos inteligentes de alcance global.
  • Conciliação entre governança via DAOs e responsabilidade fiduciária.

Para implementar compliance eficaz em transações DeFi, é essencial criar padrões mínimos globais que considerem nuances locais. A falta de uniformidade nas exigências de coleta de dados do remetente e destinatário em transferências de alto valor, prevista pela FATF, expõe a necessidade de harmonização internacional.

O Marco Legal de Cripto no Brasil (2022–2025)

Embora focado em criptoativos de intermediados, o Brasil traça as bases para o futuro regulatório de DeFi. Em 2022, a Lei 14.478 definiu diretrizes para prestação de serviços de ativos virtuais, delegando ao Banco Central a regulamentação de PSAVs (Prestadoras de Serviços de Ativos Virtuais). Essa legislação instituiu:

  • Exigência de autorização para funcionamento de exchanges e custodians.
  • Deveres de governança corporativa sólida e compliance.
  • Obrigações de PLD/AML e segurança cibernética.

Em 2025, o chamado “tsunami” regulatório apresentou três resoluções (519, 520 e 521) do Banco Central, que detalharam requisitos como:

Essas medidas visam evitar concentração de mercado em grandes grupos, mas levantam preocupações sobre a diminuição da diversidade de participantes. Além disso, o modelo tecnológico neutro fortaleceu o tratamento das operações em blockchain como transações convencionais de câmbio.

Na esfera tributária, a Receita Federal implementou a plataforma DeCripto para declaração de operações e manteve regras de IR sobre ganho de capital: isenção para vendas mensais até R$ 35 mil e alíquotas de 15% a 22,5%. A criação do Rearp ofereceu regularização voluntária de ativos não declarados por 30% sobre o patrimônio.

Debates em Curso e Perspectivas Futuras

No Congresso, avançam projetos que complementam o marco legal, com foco em stablecoins com reservas integrais, segregação patrimonial de exchanges e até uma proposta de Reserva Estratégica Soberana de Bitcoin. Esses debates refletem a busca por equilibrar segurança jurídica, inovação e soberania monetária.

Para o setor DeFi, o caminho envolve colaborar com órgãos reguladores na co-criação de padrões, promover auditorias de código, ampliar iniciativas de KYC descentralizado e desenvolver soluções de compliance on-chain. Somente assim será possível alicerçar um ecossistema financeiro verdadeiramente global e inclusivo.

O futuro do DeFi dependerá do engajamento mútuo entre inovadores e legisladores, capaz de traduzir complexidade tecnológica em normas que protejam investidores sem frear a criatividade. Sob essa ótica, casas reguladoras podem evoluir de barreiras a parceiras estratégicas na construção de uma nova arquitetura financeira mundial.

Ao enfrentar desafios regulatórios, o DeFi pode se consolidar como vetor de inclusão financeira, democratização de crédito e transparência, redefinindo as bases do mercado de capitais. O momento exige diálogo, flexibilidade e coragem para criar um arcabouço que abrace a descentralização com responsabilidade.

Por Maryella Faratro

Maryella Faratro escreve para o AchoFácil com foco em educação financeira, organização de recursos e insights econômicos práticos. Seu trabalho transforma assuntos complexos em conteúdo acessível e informativo.