Em um mundo marcado por crises ambientais e escassez de recursos, adotar estratégias fundamentadas na economia circular surge como um imperativo para empresas, governos e investidores.
Este artigo apresenta conceitos, dados e caminhos práticos para quem deseja aliar lucro ao impacto positivo.
Conceito e contexto global da economia circular
A economia circular é um modelo econômico que busca reduzir o uso de recursos, estender o ciclo de vida dos produtos e regenerar sistemas naturais, em contraste com o modelo linear “extrair–produzir–descartar”.
Seu objetivo central é reter valor dos materiais por meio de reuso, reparo, remanufatura e reciclagem em loop fechado, além de priorizar insumos renováveis e biomateriais.
Embora o sistema linear ainda predomine, a pressão global por mudança de modelo só cresce. A extração de recursos naturais triplicou desde 1970, passando de 30 para 106 bilhões de toneladas em 2024.
Sem ações estruturais, a extração pode aumentar em até 60% até 2060 e duplicar o consumo global de materiais nos próximos 40 anos, gerando um aumento de 70% na geração de resíduos até 2050.
Essa tendência cria riscos regulatórios, reputacionais e de custos para empresas presas ao modelo linear e abre oportunidades de ganho de eficiência e novos negócios para organizações que abraçam a circularidade.
Cenário atual no Brasil
O Brasil gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos por ano, mas recicla menos de 9% desse total. Quase 45,5% dos resíduos têm destinação final inadequada, seja em lixões ou aterros sem controle.
Existem mais de 3 mil cooperativas de catadores, responsáveis por grande parte da coleta seletiva informal, mas cerca de 40% do material coletado é rejeitado e acaba nos aterros.
A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) estabelece princípios como não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento de resíduos, além de incentivar o uso de matérias-primas recicladas.
Na esteira de compromissos ambientais, o Brasil sediará a COP30 em 2025, reforçando seu protagonismo na agenda verde e na pressão para alinhar a indústria a práticas circulares inovadoras.
Agenda pública: planos, estratégias e indicadores
Em 8 de maio de 2025, foi aprovado o Plano Nacional de Economia Circular (Planec), marco que define objetivos como incentivar o uso eficiente de recursos naturais e promover práticas sustentáveis ao longo das cadeias produtivas.
O Planec, liderado pela Confederação Nacional da Indústria no eixo de ambiente normativo e institucional favorável, incluiu o roadmap “Economia Circular: Caminho Estratégico para a Indústria Brasileira” com propostas de políticas públicas, PD&I e financiamento.
A Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC), instituída pelo Decreto nº 12.082/2024, integra a agenda de política industrial denominada Nova Indústria Brasil, reconhecendo a circularidade como eixo-chave de transformação ecológica.
Para medir o progresso, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços lançou em novembro de 2025 o Painel de Indicadores da Economia Circular Brasileira, plataforma interativa que analisa desde a extração de material virgem até o fluxo de resíduos no comércio exterior.
Para investidores, essa ferramenta oferece visibilidade, métricas e comparabilidade, fundamentais para embasar taxonomias verdes e critérios de investimento responsáveis.
Adoção de práticas circulares pela indústria brasileira
Segundo sondagem da CNI em fevereiro de 2025, 62% das indústrias brasileiras já adotam ao menos uma prática de economia circular. O estudo envolveu 1.708 empresas dos setores extrativo, de transformação e da construção civil.
As principais práticas implementadas são:
- Reciclagem de produtos – presente em cerca de 33% das empresas
- Uso de matéria-prima secundária – 30%
- Desenvolvimento de produtos focados em durabilidade – 29%
Setores como calçados (86%), biocombustíveis (82%), eletrônicos (81%), veículos (81%), coque e derivados de petróleo (80%) e celulose e papel (79%) encabeçam a lista de adoção.
Em contrapartida, segmentos como farmacêutico (33%), construção civil (39%–42%) e impressão (40%) ainda apresentam índices de circularidade inferiores à média nacional.
Benefícios e desafios para investidores
As empresas circulares relatam diversas vantagens competitivas:
- Redução de custos operacionais e de matéria-prima
- Fortalecimento da imagem corporativa e fidelização de clientes
- Inovação contínua e diferenciação no mercado
- Contribuição para metas climáticas e desenvolvimento sustentável
No entanto, obstáculos ainda persistem:
- Cultura e educação empresarial: 43% das indústrias apontam a falta de capacitação como barreira
- Infraestrutura de coleta e reciclagem ainda insuficiente
- Custos iniciais de implementação de tecnologias circulares
- Complexidade na mensuração de indicadores de circularidade
Por que investir em empresas circulares?
Investir em organizações com visão de futuro e práticas circulares não significa abrir mão da rentabilidade. Ao contrário, esses negócios tendem a:
- Mitigar riscos de escassez e volatilidade de preços de insumos
- Reduzir exposição a penalidades e custos regulatórios
- Capturar novas oportunidades de mercado em produtos e serviços sustentáveis
- Aumentar o valor de marca perante consumidores e investidores conscientes
Para alinhar sua carteira, considere analisar relatórios de sustentabilidade, adotar critérios de ESG e buscar fundos especificamente voltados ao financiamento de modelos de negócios inovadores para a economia circular.
Em um cenário global de transformação, as empresas que lideram a transição para a economia circular estarão à frente na criação de valor sustentável e no fortalecimento de sua competitividade no longo prazo.