Na era digital, o universo financeiro se transformou, gerando um conflito permanente entre inovação e proteção de dados.
Contexto Geral: A Revolução das Finanças Digitais
A digitalização acelerada das finanças trouxe conveniência e agilidade no dia a dia. Instituições bancárias, fintechs e aplicativos de pagamento, como Pix e carteiras digitais, hoje operam coletando, tratando e compartilhando uma vasta gama de dados.
No entanto, esse avanço caminha lado a lado com o aumento expressivo das fraudes digitais. No primeiro semestre de 2025, o Brasil registrou 6.937.832 tentativas de fraude, um crescimento de 29,5% em relação ao mesmo período de 2024, o que equivale a uma tentativa a cada 2,3 segundos. Desse total, 53,7% foram direcionadas a bancos e emissores de cartões, ocorrendo uma tentativa de golpe a cada 4,2 segundos.
- Dados como CPF, e-mail, número de cartão e telefone alimentam ataques.
- Cibercriminosos criam perfis e aplicam engenharia social.
- Vazamentos e armazenamentos inseguros formam um ecossistema de risco.
Esse cenário revela o dilema central: o sistema financeiro requer dados para prevenir fraudes, avaliar riscos e personalizar serviços, mas o uso excessivo tensiona o direito à privacidade e expõe usuários a abusos.
Riscos e Fragilidades no Brasil
Segundo o National Privacy Test 2025, o Brasil caiu de 57 para 54 pontos em cibersegurança, ficando abaixo da média global. Os subíndices brasileiros reforçam esse declínio:
O estudo segmentou a população em perfis de conhecimento:
- 8% são “Cyber Stars”, com alto domínio.
- 61% são “Cyber Adventurers”, com boas práticas, porém falhas.
- 29% são “Cyber Tourists”, com noções superficiais.
- 2% são “Cyber Wanderers”, quase sem conhecimento.
As deficiências em reconhecer phishing e URLs falsas pioraram em 2025. A capacidade de identificar sites fraudulentos caiu de 34% para 27%, e o reconhecimento de URLs falsas de 49% para 43%. Ainda assim, há bons hábitos mantidos pela maioria:
- 96% sabem criar senhas fortes.
- 94% identificam ofertas suspeitas em streaming.
- 93% compreendem permissões de aplicativos.
- 86% conhecem riscos de salvar cartão no navegador.
Inclusão Digital e Exposição a Riscos
O acesso à internet em lares das classes D e E saltou de 15% em 2015 para 73% em 2025, com 5 pontos de crescimento apenas no último ano. Esse avanço democratiza o acesso a serviços financeiros online—bancos digitais, microcrédito e carteiras eletrônicas—mas também amplia a base de potenciais vítimas de golpes sofisticados e engenharia social.
Portanto, a inclusão digital e financeira vem acompanhada de exposição massiva a riscos, criando um paradoxo: ampliar a participação na economia digital sem contar com educação e infraestrutura de segurança adequadas.
Percepção e Comportamento dos Brasileiros
Pesquisa da Acronis de 2025 revelou que o Brasil lidera na valorização da privacidade de dados: nota 9,4 contra a média global de 8,6. Em segurança, alcançamos 9,3 pontos diante de 8,0 no mundo.
- 82% dizem usar senhas fortes (mundo: 68%).
- 34% verificam a segurança de sites antes de inserir dados (mundo: 21%).
- 56% evitam clicar em links ou anexos suspeitos (mundo: 40%).
No entanto, cerca de um terço dos brasileiros já teve dados roubados ou perdidos, acima dos 25% globais. Essa experiência negativa pode motivar práticas mais rigorosas, mas também evidencia a falta de preparação de muitos usuários.
Como Proteger sua Privacidade Financeira
Frente a esse cenário desafiador, é fundamental adotar medidas concretas:
- Use autenticação de dois fatores em todas as contas financeiras.
- Atualize softwares e dispositivos para corrigir vulnerabilidades.
- Verifique sempre o certificado de segurança (HTTPS) dos sites.
- Evite usar redes Wi-Fi públicas sem VPN.
- Armazene senhas em gerenciadores confiáveis, não no navegador.
- Revise permissões de aplicativos e serviços periodicamente.
Além disso, considere ferramentas de proteção como extensões de bloqueio de rastreadores, serviços de monitoramento de crédito e redes privadas virtuais. No âmbito coletivo, pressione instituições e legisladores por políticas de privacidade mais rígidas e por uma regulamentação clara sobre open banking e open finance.
Considerações Finais
O dilema da privacidade financeira na internet reflete um embate entre progresso e segurança. A digitalização abre portas para inclusão e inovação, mas também amplia vulnerabilidades.
Cada usuário deve assumir um papel ativo na própria proteção, equilibrando o uso de tecnologias com práticas conscientes. Para além das atitudes individuais, é essencial fomentar a educação digital e pressionar por normas que garantam respeito aos dados.
Assim, será possível aproveitar as vantagens das finanças digitais sem sacrificar o direito fundamental à privacidade. A responsabilidade é de todos—usuários, empresas e governos—para construir um ecossistema financeiro mais seguro e confiável.